“Ciência brasileira entre inovação e escassez: quando a falta de investimento ameaça o conhecimento”
A dimensão econômica da ciência brasileira: entre inovação e escassez
Em fevereiro de 2026, um episódio ganhou ampla repercussão nas redes sociais e na mídia: a divulgação do caso de Bruno Drummond de Freitas, apontado como o primeiro paciente tetraplégico a voltar a andar após tratamento com polilaminina, proteína desenvolvida pela cientista Tatiana Sampaio, pesquisadora vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Milagre? Genialidade? Super dotação? Essas interpretações, embora recorrentes no imaginário popular, não são o foco desta análise. O que importa aqui é a dimensão estrutural e econômica que sustenta, ou fragiliza, a produção científica brasileira.
O financiamento da ciência no Brasil
O Brasil investe, em média, cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), segundo dados do Senado Federal do Brasil. Mas, de que forma, ocorre esse financiamento? Primeiramente, o Poder Executivo propõe a Lei Orçamentária Anual (LOA), em seguida o Congresso Nacional precisa aprovar o orçamento, para que assim os recursos sejam designados para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o qual distribui as verbas para agências de fomento e instituições de pesquisa. Dentre as principais agências financiadoras, enquadram-se o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq);Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), em que ambas possuem a funcionalidade de financiar as bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado; projetos de pesquisa; editais temáticos; infraestrutura e equipamentos e inovação tecnológica.
O caso da patente da polilaminina
Apesar do potencial inovador da polilaminina, Tatiana Sampaio não conseguiu obter a patente internacional da substância, justamente devido à falta de recursos para manutenção do registro fora do Brasil. Mas, o que é patente e qual a sua funcionalidade? Patente, basicamente, é um registro, o qual garante o título de propriedade à respeito de uma determinada invenção/criação e garante a exclusividade comercial do produto e este é oficializado pelo “Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI)”, todavia, pO ara que o procedimento seja efetuado com êxito, existe um custo monetário. Por conseguinte a este fator, o tratamento com polilaminina torna-se exposto para que grupos de pesquisas internacionais, reproduzam esse produto e lucre comercialmente com ele.
Pesquisas interrompidas por falta de recursos
O descaso com o investimento na área da ciência e tecnologia recebeu mais impacto com os estudos de Tatiana Sampaio, entretanto, essa eventualidade é algo corriqueiro, como o do agrônomo Lucas Cavalcante da Costa, o qual obtinha um projeto, cujo principal intuito era reduzir o impacto das mudanças climáticas na produção do arroz, alimento este presente no cotidiano no brasileiro e que garante um percentual significativo na segurança alimentar. Entretanto, o projeto não recebeu os investimentos financeiros necessários pelos órgãos governamentais e por conseguinte, a pesquisa foi cancelada.
Portanto, diante de tantas evidências, é possível questionar-se se a justiça científica é mesmo alcançável ou se a sociedade brasileira permanecerá tanto desprovida dos benefícios que a ciência pode ofertar, como também, sem quaisquer incentivos para que indivíduos que pretendem seguir este ramo profissional. Então, assim seremos eternos submissos da exploração, neste caso, intelectual das demais nações, sobre descobertas produzidas em nosso próprio país?