Na Bahia, festas de largo, São João e Carnaval não são apenas celebrações: são momentos que movimentam cidades inteiras, atraem turistas e reforçam tradições que se passam de geração em geração. O álcool, inevitavelmente, está presente — seja no copo levantado em um brinde, seja na mesa que acompanha o forró ou o trio elétrico.
No entanto, por trás das cores, da música e da alegria, há uma realidade dura e silenciosa: a embriaguez, em muitos lares baianos, é um combustível perigoso para a violência doméstica. Dados nacionais indicam que cerca de metade dos casos de violência contra a mulher envolvem álcool. Na Bahia, o consumo médio de bebidas alcoólicas supera a média nacional, e isso reflete em famílias desestruturadas, conflitos intensos e, em casos extremos, tragédias irreversíveis, especialmente em cidades do interior como Brumado, Livramento de Nossa Senhora, Macaúbas e Guanambi, onde o isolamento social e a falta de rede de apoio amplificam o risco.
A Embriaguez como Gatilho e “Justificativa”
Durante grandes festas, o álcool atua de forma dupla. Primeiro, ele potencializa a agressividade: altera o funcionamento do córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos. Quando há um parceiro com tendências abusivas, uma discussão banal pode rapidamente se transformar em agressão física.
Em segundo lugar, existe a chamada “desculpa social”. É comum que o agressor utilize a embriaguez como justificativa: “foi só a bebida, não sou assim normalmente”. Essa narrativa não só minimiza a gravidade do ato, mas também cria barreiras para a denúncia, já que muitas vítimas esperam que o comportamento desapareça com a sobriedade.
Perfil de Risco nas Festas Baianas
O padrão de consumo de álcool está diretamente ligado à intensidade da violência doméstica. Em festas prolongadas, é possível observar:
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Agressão física: cerca de 28% dos casos envolvendo agressores alcoolizados evoluem para violência direta.
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Vulnerabilidade transgeracional: muitas mulheres cresceram em lares onde a bebida era sinônimo de conflito e agressão, perpetuando ciclos que se repetem na vida adulta.
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Feminicídio: na Bahia, uma mulher perde a vida por violência de gênero a cada três dias. A embriaguez do agressor é frequentemente mencionada em inquéritos como fator que desestabilizou o lar pouco antes do crime, inclusive em municípios do interior como Brumado, Livramento de Nossa Senhora, Macaúbas e Guanambi, onde o acesso à Justiça pode ser mais lento e distante.
O Estado em Alerta
Mesmo quando a SSP-BA comemora a redução da violência nas ruas durante o Carnaval, os lares continuam sendo pontos de risco. Enquanto a cidade celebra, para muitas mulheres, o perigo permanece dentro de casa, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade, seja na capital ou em pequenas cidades do interior.
Se você ou alguém que você conhece está em situação de risco, existem canais de ajuda:
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Zap Maria (71 99946-1900): Orientação via WhatsApp.
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Delegacia Digital da Bahia: Registro online de ocorrências.
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Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher.
Além disso, é importante saber identificar os primeiros sinais de abuso e buscar tratamento para dependência química quando necessário. Informação e apoio podem ser a diferença entre a segurança e a tragédia, seja em Salvador, Brumado, Livramento de Nossa Senhora, Macaúbas ou Guanambi.