Gadgets, açoites e frontais

Os gadgets monitoram nossas vidas.
Os gadgets monitoram nossas vidas.

 

Em 2010, eu estava concluindo o doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC de São Paulo. Eu estudava a cibercultura, um conceito que à época suscitava grandes e intermináveis debates acadêmicos. Nessa ocasião, grande parte da comunidade acadêmica no Brasil acreditava que o advento e a expansão da internet cumpririam uma utopia de “tecnofilia”, ou seja, um mundo melhor, mais conectado e interdependente. Acontecimentos no campo político mostraram que essa utopia era em parte ingenuidade e em parte sagacidade marqueteira.

Mas não é sobre isso o tópico deste artigo. Ocorre que, na minha pesquisa sobre a sociedade tecnológica, encontrei um livro cujo teor crítico me chamou atenção: Gadget – Você Não é Um Aplicativo, de Jaron Lanier. O livro discute os problemas culturais resultantes de um design digital que expande a “inteligência” (muitas aspas) artificial dos algoritmos e coloca-os acima da inteligência e da capacidade humana de julgar e fazer escolhas. Estávamos renunciando à angustiante liberdade de escolher, pelas certezas ofertadas pelos algoritmos. Quem se atreve a sair de casa hoje sem ligar o Waze?

No meu entendimento, o texto foi profético, uma vez que antecipou o espírito do nosso tempo. Não foi preciso uma década para que a vida cotidiana estivesse cercada por aplicativos de toda ordem. Segundo a agência focada em análise do mercado mobile, o App Annie, a média de uso dos apps pelos brasileiros é de 5.4 horas por dia.

Além de serviços (comida, transporte, relacionamentos, educação), os gadgets ofertam a promessa do controle, da metrificação da vida cotidiana. Os gadgets oferecem a ilusão da segurança frente a um mundo cada vez mais inseguro. Os gadgets permitem que controlemos a quantidade de passos, calorias, respiração, batimentos cardíacos, pressão arterial, peso, alimentação, horas de sono, sexo, ovulação, entre outras inúmeras atividades. Os gadgets monitoram nossas vidas. Com eles, estabelecemos metas e controlamos resultados. Tudo em nome do “melhor de você em você mesmo”.

 

 

Não se trata de saudosismo. Quando ouço de uma pessoa da minha faixa etária ou mais velha que “no meu tempo era melhor”, penso que essa pessoa está com amnésia. No passado, nossos ancestrais não tinham acesso a água tratada, esgoto, medicamentos para controle de hipertensão e diabetes a custo quase zero. Não tenho saudades dos orelhões, da vida sem UBER, sem SUS e de um ônibus em que, uma vez lá dentro, corria-se o risco de contrair tétano. Não tenho saudades de quando o curso superior era privilégio da elite. Nossos ancestrais viviam em condições mais precárias, eram mais pobres, adoeciam e morriam mais cedo. Mas também penso que eram menos ansiosos, dado que eram menos pressionados a obter alto rendimento em curto prazo.

Os gadgets na nossa vida

 

Os gadgets estão na vida íntima, na família, na escola, no trabalho, na pesquisa, no lazer, no supermercado, na medicina, na nutricionista, nas academias, na massagem tântrica, na meditação. São ferramentas em prol da produtividade e da alta performance. Os gadgets são coachings virtuais que carregamos no bolso. Eles nos avisam que está na hora de meditar ou de tomar água. Tudo em prol da indústria da saúde e do sucesso, do ótimo desempenho.

Mas como tudo produz o seu contrário…no combo, vem a depressão e a ansiedade; afinal, quem consegue manter-se altamente produtivo, altamente performático na cama, na network, na maternidade, na universidade, no fitness, no happy hour? Viver sob a tirania das métricas aumenta a culpa, a sensação de fracasso. Estamos mais ansiosos, depressivos e agitados.

O consumo de metilfenidato, conhecido popularmente como ritalina, aumentou mais de 800% no Brasil em dez anos. Estudo realizado pela Funcional Health Tech mostrou um aumento de mais de 20% no consumo de antidepressivos no Brasil, entre 2014 e 2018. Os brasileiros compraram, em 2018, mais de 56,6 milhões de caixas de medicamentos para ansiedade e para dormir – cerca de 6.471 caixas vendidas por hora ou, aproximadamente, 1,4 bilhão de comprimidos em um ano. O mais consumido é o Frontal. O gadget oferece a ilusão do controle, mas cria a perturbação. E onde o mercado vê problema, o marketing vende a solução.

Afinal, para atingir eficiência, ‘ser a melhor versão de si mesmo’ todos os dias e exibir, nas redes sociais, uma imagem de realização, sucesso e felicidade, é necessário um apoio psicofarmacológico.

Acredito que o gadget é somente um dispositivo à serviço do espírito da nossa época: metrificação em prol do alto desempenho. Ou seja, não é o gadget, mas a sociedade da alta performance que nos empurra para o fundo do abismo.

Na década de 1970, Belchior compôs uma linda canção na qual ele lembrava de uma infância cercada de “galos, noites e quintais”. Na canção, Belchior diz que “veio o tempo negro e a força fez comigo. O mal que a força sempre faz”. Hoje, estamos envoltos por gadgets, açoites e frontais.

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